São 00:33, madrugada do dia 31/10 e meu dragão mágico continua camuflado a minha espera; para, a qualquer momento, atravessarmos a janela de meu quarto, escoltados apenas pelo olhar curioso de uma lua cheia esquecida no céu.
Hoje atacaremos alguns moinhos de vento, acredito que será uma batalha implacável e longa. Assim, estou levando na algibeira uma porção a mais de enxofre para meu amigo alado.
Talvez, não possamos atender na noite de hoje ao pedido de socorro que uma lady nos enviou por um pombo correio, mas tudo bem, ela tem todo tempo do mundo, não irá a lugar algum até amanhã; só precisaremos alimentar bem esse pombo para que ele nos guie até o reino encantado em que ela se encontra, capturá-la e depois por a torre, em que é prisioneira, abaixo.
Na saída, teremos que incendiar e fazer carvão de algumas catapultas. Tudo isso bem rápido se quisermos ficar fora do alcance das flechas que estarão a rasgar os céus.
Ferozes e famintas por nossas carnes.
Ah esses vilões, como dão trabalho a nós heróis!
Semana passada nossa odisséia foi no território de um Lord muito querido. Eram os aposentos do Lord Calvin e seu fiel escudeiro Aroldo.
Ali travamos uma batalha que parecia não ter mais fim, mas ao final, conseguimos expulsar o monstro que o espreitava debaixo de sua cama.
Para que isso não aconteça outras vezes, cortamos os pés da cama.
Enfim, difícil não são essas batalhas, e sim manter nosso anonimato. Durante o dia meu dragão mágico que “solta fogo pelos olhos e pelo nariz” não passa de um inofensivo e singelo canário belga que finge morar em uma gaiola na parede de meu quarto.
Já eu... Bem eu sou um cidadão comum, pagador de impostos e para não fugir à regra:
Apenas um “repórter” noticiou
A traição, fúria e dor. A vingança
Em um lar, que a todos pasmou.
A esposa abrira mão da herança;
De seu povo e seguiu sua consciência.
Foi feliz até o dia que seu esposo a repudiaria
E no cálice da desgraça, beberia sem penitência,
O que de mais cruel, o destino lhe reservaria.
“[ ] empunharei a lâmina, e... os matarei... por Hécata 1 [ ]”
E mulher mata os filhos que teve com o marido.
Essa seria a manchete atual. Mas, tem outra data.
A Medéia, 431 a.C foi contada por Eurípedes.
Milênios devorados e nada mudou nos dias gualdidos.
A traição? Vive por aí; nos corações de todas as idades.
1 Hécata, divindade noturna que aterrorizava os homens
com sonhos, fantasmas e magias, invocada como
protetora dos feiticeiros.